Metamorfose de mim

Em meados do complicado ano de 2011, eu assistia o videoclipe Emotion, do antigo grupo pop Destiny’s Child e optava por deixar meu cabelo igual ao da Beyoncé. Eu sabia que ele era um cacheado crespo, só fazia muito tempo que eu não o via.

Passou um ano e meio, aproximadamente, para que eu reencontrasse minhas raízes e me descobrisse. Foi em fevereiro de 2013 que eu o soltei.

Hoje em dia ninguém consegue dissociar minha imagem atual de quem eu sou. Já fui alisada por muitos e muitos anos… Não há mais feridas, mas cicatrizes profundas que a cada emancipação vão se superficializando.

Eu tinha 11 anos e usava trancinhas naturais desde os 4, desde muito pequenina… Chamaram-me de medusa, odiei-as. Alisei-me, chamaram-me de tudo… Sugeriram até o quão cômica eu ficaria se eu fosse careca. Pisaram em mim, todos os dias… Em todos os momentos. E o rancor dali nascia. Não tive par na última festa junina do ensino fundamental.

Nunca tive um par menino, sempre fora uma amiga com dó de mim, pela rejeição. E óbvio, eu nessas condições se quisesse dançar… Eu teria que ser o menino. Era o meio da adolescência eu não sabia o que significava gênero, sexo, raça ou classe… Aquilo era importante para uma pisciana adolescente (romântica) e com baixa auto estima.

Foram muitas as frustrações de relacionamentos em minha juventude… A infância foi doce, faço prevalecer àquelas lembranças mais longínquas nos momentos amargos. Esses acontecimentos fazem parte de quem eu sou e de quem estou me transformando.

Exponho uma pequenina parte de minha vida para relatar o quão importante é a estética em uma sociedade imagética e espetacular. O culto ao corpo perfeito, branco, liso, rico, magro… O quanto essa sociedade dilacera os nichos que não se encontram nesses padrões. Bulimia, anorexia e outros distúrbios são provas científicas disso. Eu nunca cheguei a bulimia, por pouco, acredito. Eu nunca cheguei a me lavar com cândida para ser branca como relatos fortíssimos de irmãs empoderadas relatam… Por de ser pela minha condição de mais clara da família e a crença de que eu era branca, todos assim me denominavam… Fui descobrir mais tarde, outro dia eu conto. Pode ter sido várias coisas. Mas acredito ser importante a não hierarquização da dor de cada um. São negações, são feridas, são rancores… São crescimentos e emancipações. Descobertas de si.

Como mulher negra no ano de 2015, no fim do primeiro ano de uma faculdade de elite, PUC-SP, acredito ser de extrema importância a constante ocupação dos espações… A exposição e críticas são consequências minúsculas perto do empoderamento e força que vocifero aos meus iguais. Todo e qualquer grupo oprimido.

Falar de uma dor, nunca é ofuscar outras. É ter propriedade momentânea de uma vivência que não é única, mas de várias meninas, várias mulheres negras.

Esse é um relato (pequeno) manifesto. Já proferiram publicamente que isto é desabafo. Reitero relato/manifesto em uma sociedade excludente.

Recentemente eu descobri minha negritude… Minha afrotranscendencia que não está só no meu cabelo… É bem maior que isso. Processo particular que envolve amadurecimento e expulsão de um rancor histórico. Mas que claro, o primeiro passo foi o cabelo… Foi de fora pra dentro. Da estética à essência. Ser negra é muito mais do que ter cabelo crespo e pele escura… Mas a porta pra essa conclusão não é entregue de bandeja, é trabalho, é dureza de ver a si mesmo nu, de corpo e de alma.

Um grande pedido à todos as pessoas. Jamais chame um negro de racista, mostre isso delicadamente a ele. Jamais force o empoderamento à um negro… Seus olhos ainda estão vendados por séculos de escravidão e anos de negação.

Jê Ernesto, São Paulo.

Meados de 2011

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Segundo Semestre 2015

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