Do micro para o macro, a estética como perspectiva de vida.

Há 6 anos atrás eu desistira de alisar o cabelo. Conscientizei-me de que, por mais que eu tentasse, meu cabelo seco, fino e crespo nunca aceitaria a química e seria um liso maravilhoso e brilhante. Prendi meu cabelo bandido e caminhei para novas descobertas.

Antes disso tudo, Beyoncé, no clipe “emotion – Destiny’s Child” me inspirou. Naquela época eu não sabia o que era megahair, mas eu sabia que a textura do meu cabelo era parecida com aquela. Se Beyoncé era tão poderosa e usava um cabelo natural, eu podia sim! Um dia eu seria como ela. Eu tinha 13-14 anos.

E fui crescendo. O cabelo preso, a mente também. Porém, apesar de dolorido sempre estudei, sempre foi paixão e escudo. Eu não conseguiria ser bailarina, que era o meu sonho. Eu não conseguiria viver da dança, eu nem havia sido iniciada. Então, empenhei-me em ser boa em tudo. Eu não tinha amigos, eu não era bonita, desejável. Mas a melhor da classe? Sempre batalhei para ser. (não pensem que é tão fácil expor isso, apesar da vivência ser óbvia e, claro, não ser única)

Há muitas variáveis aqui. Oportunidades conquistadas, o QI (mais quem indica do que consciente de inteligência), família estruturada, morar na periferia e etc. Não usar cotas universitárias ou qualquer outra (não sou contra!). Não destrincharei toda a minha vida aqui. Minha vivência pessoal é impulso, é pontapé para uma reflexão maior.

Dado esse breve contexto, eu me descobri negra no meio de um mar branco elitista. O colégio Marista Arquidiocesano, no qual estudei o ensino médio completo. O cabelo crespo solto antecedeu a consciência do SER NEGRA, esse último no ano de vestibular, na beira de um colapso, em ano de copa do mundo, foi trash. E foi sozinha. Eu não tive movimento político para caminhar junto nessa descoberta. Foi escrita, foi desenho, foi arte-teatro, foi tudo. Menos um movimento intitulado negro de esquerda. E está tudo bem, as descobertas não são iguais e não ocorrem do dia para a noite. Como eu disse, beyoncé (e Shakira tbm) são as mulheres: negra e afrolatina (respectivamente) em que eu consigo me enxergar e isso desencadeou um local, um espelho. Uma representatividade, como costumam chamar hoje em dia.

Eu sou acadêmica. Vivo em um não lugar de morar na periferia e quase que não dialogar com esse espaço, tanto culturalmente e intelectualmente (e ta tudo bem também, não é uma reclamação). Amo dançar, sempre foi uma paixão. Sou uma interrogação em relacionamentos (e também está tudo bem). E tenho 19 anos (meu aniversário é em março, pisciana sim!). Por último e mais importante, sou filha mais velha.

Não entrarei nem no quesito colorismo dessa vez, é complicado. Mas, é importante frisar que sou a mais clara da minha família e isso sempre foi enfatizado dentro de casa. Como será que isso afetou a minha subjetividade? Fica a reflexão para uma próxima.

Todo esse meu mimimi pra quê? Para localizar o meu local de fala, de descoberta enquanto mulher negra. De Jennifer, que é negra, mas não só isso.

 

A dita *GERAÇÃO TOMBAMENTO*

 

O que eu entendo?

É um movimento estético-empoderador. ESTÉTICO. Desde os primórdios da sociedade tanto ocidental quanto oriental, a estética é tratada como separadora de classes, de etnias, de cultura, de poderes. PODERES. É claro que falar de estética é falar de poder. O seu excesso ou a falta dele. Então, situemo-nos!

Freqüentei festas como batekoo, don’t touch my hair, heavy baile, blitz e mais algumas. Essas baladas e roles têm como objetivo (acredito eu, posso estar errada sim!) o entretenimento, o divertimento, a dança, o envolvimento com outros corpos, com outros cheiros e sabores (e tá tudo bem, ta tudo ótimo). E a construção da atração e do desejo são essenciais nesses diálogos não verbais.

Criar uma estética que afronte, que é festiva é reformista! É pedir espaço, é reinvindicar espaço nos tablóides, sim! É participar da mídia, é empoderar outros assim como beyoncé e seu império me empoderaram (vide início). Agora, exigir caráter, designar, colocar na caixinha e pedir uma conduta universal de adesão a todos? Gente, isso é utópico. Isso não existe. Estereótipos são pra isso. Para demarcar espaço, para se agrupar e desagrupar. São ferramentas de defesa e de ataque. (pode estar confuso, mas já explico)

Não é que eu ache que a geração tombamento é isso aí e ta tudo bem, deixa eles afrontarem tudo e todos (até os semelhantes) e não vamos criticar. Não. Mas a crítica tem que ser construtiva, não pode ser crítica pela crítica.

A miss Brasil não vai acabar com o trabalho escravo (não que ela não possa, mas não é sua responsabilidade), assim como a geração tombamento não vai acabar com o sistema carcerário opressor, nem com a morte da juventude negra. Mas sim, são todas problemáticas que atingem o movimento negro. (eu to exagerando mesmo, para que seja percebido as limitações de cada movimento)

A escravidão foi abolida há não menos que 128 anos. Construir um ser negro é construir um ser humano, visto que nos foi retirada essa subjetividade. Há o racismo introjetado, há o racismo estrutural, há o racismo escancarado, há estética, arte, cultura, mídia, vida, morte, religião, samba, carnaval, universidade, esporte… Tudo junto e misturado.

Eu posso estar falando um monte de bobagem, e está tudo bem se eu tiver também, eu estou exercendo o meu direito de errar e não ser crucificada por que estou praticando a minha subjetividade construída com muito dor e amor. Mas assim, vamos parar e pensar um pouco:

Por que continuamos a exigir uma conduta salvadora de tudo e todos daqueles que estão tentando salvar a si mesmos?

O capitalismo é isso gente, individualismo, guerra, exploração. Eu realmente não sabia que a estética era compromissada com a luta de classes. Até onde eu sei, o conceito de individualidade, individualismo e propriedade como um todo, são frutos do capitalismo. Inclusive essa tal estética pela qual a gente tanto luta e é afetado.

Resultado de imagem para subjetividade

*por ora, são só reflexões! Todo contraditório é bem vindo, afinal… Quem sou eu nessa sociedade de massa??*

 

 

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